segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ensinamento sobre a Compaixão


Poucos dias depois de seu aniversário de 28 anos, Gyalwang Karmapa deixou os estudantes e devotos locais encantados ao conceder um ensinamento de improviso, atendendo aos pedidos dos estudantes do Monastério de Gyuto, sua residência temporária.
Embora o ensinamento não tenha sido planejado, a notícia se espalhou rápido pelas imediações e logo uma pequena multidão lotou o gompa, ansiosa para ouvir as palavras de sabedoria de Gyalwang Karmapa.
Ele começou agradecendo aqueles que ali estavam reunidos pelo interesse demonstrado pelo seu aniversário e por todas as celebrações pessoais e preces de aspiração. “Com a exceção dos indivíduos sublimes e espiritualmente avançados, todos nós, pessoas ordinárias, estamos sujeitos aos sofrimentos do nascimento, envelhecimento, doença e morte”, disse ele. “Pessoalmente, não vejo necessidade de celebrar o meu aniversário, já que o nascimento, de um modo geral, não é nada mais do que sofrimento. Mas, ainda assim, sinto que preciso expressar o meu agradecimento pessoal a cada um de vocês e a todas as pessoas a todas as pessoas que veem o meu aniversário como uma ocasião para realizar preces virtuosas e dedicações.”
Seguindo sua conduta habitual, no começo do ensinamento Gyalwang Karmapa ofereceu a todos ali reunidos a transmissão oral da prática do Chenrezig de Quatros Braços. Descrevendo essa prática específica como sendo a própria prática da compaixão, ele então prosseguiu com um ensinamento extensivo sobre a compaixão.
“O que chamamos de compaixão é a vontade ou o desejo de ser capaz de proteger os seres sencientes do sofrimento”, começou ele. “Nós poderíamos chamar isso de um senso de determinação, um senso de coragem ou de decisão. Isso é compaixão. Não é apenas algo intelectual, que pertence ao cérebro ou a essa esfera de nossas experiências. Pelo contrário: a compaixão é uma qualidade ou sentimento poderoso que nasce do fundo de nossos corações e que é necessariamente sincero. É assim que eu enxergo a compaixão.”
Criando um vínculo entre a necessidade de compaixão e a realidade da interdependência no nosso mundo contemporâneo, Gyalwang Karmapa enfatizou as ligações entre o bem-estar coletivo e o individual.
“No século XXI, nós nos encontramos no que podemos chamar de era da informação”, explicou ele. “Dentro da era da informação, eu diria que, mais do que nunca, o sofrimento dos outros seres passou realmente a fazer parte da nossa experiência individual. Isso não é meramente uma ideia; isso descreve a verdadeira realidade do mundo em que vivemos agora. Conforme continuamos nessa era da informação, podemos ver que nosso mundo está ficando cada vez menor e que todos nós estamos ficando cada vez mais perto uns dos outros. Dessa forma, ficará, também, cada vez mais evidente que as experiências dos outros seres sencientes são, de fato, parte da nossa própria experiência individual.”
“Isso não é meramente uma noção ou um conceito, mas um fato da nossa realidade como a experimentamos atualmente”, continuou ele. “O sofrimento dos outros seres é parte da nossa experiência individual. E isso é verdade devido ao fato de sermos mutuamente dependentes. Por sermos mutuamente conectados ou inter-relacionados, qualquer que seja o impacto sofrido por um indivíduo, tal impacto, na verdade, afetará todos nós. Então, eu penso que, nesses termos, a compaixão é uma maneira especialmente realista de lidar com a situação em que vivemos nos dias atuais.”
Gyalwang Karmapa, então, explicou que a compaixão tem que começar com a compaixão por nós mesmos. Além disso, a compaixão não deveria permitir o nascimento de qualquer sensação de separação entre nós mesmos e aqueles por quem sentimos compaixão; mas, sim, permitir que nos identifiquemos mais proximamente com os outros.
“Para desenvolvermos nossa habilidade de sentir compaixão pelos outros, nós precisamos começar por nós mesmos”, disse ele. “Precisamos considerar, de um ponto de vista individual, o quanto estamos oprimidos pelo sofrimento. O nosso nível individual de sofrimento, então, passará a ser o modelo que usaremos como base para expandirmos o nosso entendimento sobre a qualidade das experiências dos outros, sejam elas boas ou más.”
“Ao olhar para esse relacionamento, estamos tentando desenvolver compaixão por alguém como objeto da compaixão”, continuou ele. “De nossa parte, somos aqueles que sentem ou cultivam esse senso de entendimento. Mas, se tivermos a concepção de que nós estamos em uma boa situação e que estamos olhando para alguém que está em uma situação desfavorável, então, haverá uma sensação de separação. Não devemos permitir que tal sensação se coloque entre nós e aqueles por quem sentimos compaixão. O que devemos fazer é empenhar-nos para sentirmos que somos parte da pessoa que está sofrendo, que estamos participando de seu sofrimento. Dessa forma, basearemos nossa compaixão em um forte senso de identificação com um outro indivíduo.”


domingo, 24 de março de 2013

O treinamento da mente no cotidiano



S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche
O budismo é uma tradição espiritual e filosófica que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos e hábitos negativos da mente e revelar a sua natureza pura e absoluta.
A natureza básica da mente é como ouro puro, mas a sua pureza inerente não é óbvia, pois está coberta por uma mescla de emoções conflitantes, circunstâncias cármicas, obscurecimentos intelectuais e hábitos.Essas camadas não refinadas, como minério que contém ouro, precisam ser removidas para que a essência pura do nosso ser, o ouro elementar, seja revelada.
Nosso nascimento humano nos oferece a oportunidade de empreender esse processo de purificação e descobrir o amor, a compaixão, a equanimidade e a alegria que surgem espontaneamente da natureza fundamental da mente.
Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada.
Sei disso por experiência própria, pois meu país, o Tibete, foi perdido para os invasores comunistas, completamente hostis às nossas tradições culturais e espirituais. Muitos grandes mestres morreram de fome, foram torturados e assassinados. Apesar dessas aflições, os comunistas não conseguiram tirar deles a fé, a compaixão ou a paz interior conquistada por meio da realização espiritual. Eles podiam, apenas, dominar a realidade exterior.
O que é significativo?
A maioria de nós, neste país abundante e acolhedor que é o Brasil, não se depara com desafios tão dramáticos. Ao invés disso, somos desafiados a encontrar o que é realmente significativo em nossas vidas tão atarefadas e descobrir o que verdadeiramente é benéfico em nossas interações com a família, com aqueles que amamos, com as pessoas com quem trabalhamos e encontramos.
Sob o ponto de vista budista, nada supera a importância do uso deste nascimento humano precioso para reconhecermos a inabalável natureza absoluta da mente. Esse reconhecimento instiga confiança e poder para enfrentar os acontecimentos efêmeros, tanto internos quanto externos. O caminho para o conhecimento da natureza da mente depende de nossos esforços para beneficiar os demais. Cada vez que colocamos de lado nossas tendências autocentradas para trabalhar pelo bem-estar dos outros, purificamos alguns dos obscurecimentos usuais da mente e aumentamos nosso mérito.
Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana
A purificação e geração de mérito constituem o caminho para a iluminação e podemos encontrar constantes oportunidades para integrá-las às nossas atividades cotidianas. As pessoas, em geral, queixam-se de que não têm tempo para fazer prática formal. Entretanto, qualquer dia pode ser estruturado como uma sessão de meditação prolongada.
• Ao acordarmos pela manhã, nos alegramos com o fato de termos mais um dia para consumar a prática espiritual.
• Estabelecemos uma motivação pura e forte para deixar de prejudicar os outros por meio de nossas ações do corpo, fala e mente e para beneficiá-los como pudermos.
• Durante o dia, verificamos a nossa mente – mesmo quando estamos conversando ou ocupados com atividades – para ver se essas ações advêm de uma intenção pura ou de venenos como o egoísmo, o orgulho, a inveja e a raiva. As ações ou palavras podem ser exatamente as mesmas, mas a motivação positiva ou negativa por trás delas determinará seus resultados cármicos.
• À noite, antes de dormir, refletimos sobre o nosso dia. Se encontrarmos momentos em que fracassamos em seguir nossas boas intenções, podemos purificá-los. Invocamos um ser iluminado como nossa testemunha, reconhecemos nossa falha, geramos remorso por tê-la cometido, fazemos o compromisso de não repeti-la e recebemos a purificação visualizando que luz se irradia de nossa testemunha iluminada, nos permeia e purifica a negatividade.
• Também relembramos os momentos em que criamos mérito com nossas ações, nossa comunicação e intenções positivas. Imaginamos esse mérito se expandindo e formando uma vasta oferenda que se dissolve nas mentes de todos os seres por todo o universo.

Praticantes secretos

Do mesmo modo que uma pessoa, ao acender uma vela, fornece luz para todos que estão no mesmo ambiente, a dedicação do mérito que geramos individualmente aumenta qualidades positivas – prosperidade, longevidade e felicidade – para todos os seres.
Os ensinamentos de Buda nos permitem consumar uma transformação através da prática espiritual sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos nossa crença para os outros, sem religiosidade externa. Internamente, treinamos nossa mente e nos tornamos praticantes secretos no caminho à iluminação.