quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Como Praticar o Budismo Tibetano

Budismo Tibetano é uma forma completa de budismo, contendo uma filosofia sutil e avançada, instruções passo a passo claras para meditação, exercícios devotos e meditações físicas que funcionam como o Tai Chi e muito mais.


1 - Leia o máximo de livros do Dalai Lama possível. Os mais essenciais são “Mundo do Budismo Tibetano”,”Conselhos Sobre a Morte,” “A Arte da Felicidade”, “Um Coração Aberto: Praticando a Compaixão na Vida Cotidiana”, “Como Praticar: O caminho para uma vida repleta de sentido” e “O Caminho da Felicidade.” O Dalai Lama é um melhores e mais cultos e humildes dos praticantes do Budismo, pelo menos entre os mais conhecidos.

2 - Seja paciente. Os ensinamentos filosóficos do Budismo Tibetano, particularmente o ensino da imputação pela mente, são muito sutis e difíceis de compreender e provavelmente vai demorar anos, ou pelo menos vários meses de estudo e contemplação antes de eles começarem a fazer sentido e serem aplicados nas suas experiências pessoais de maneira real. Não desista. Continue estudante, continue pensando no que leu e memorizou (memorizar citações importantes de escritos budistas do Dalai Lama é um passo importante para entender e instilar as ideias filosóficas do Budismo Tibetano em sua mente), continue meditando.

3 – Medite. Não importa que tipo de meditação você faça; o que é importante é que você pratique todos os dias. Quanto mais você fizer em um dia, melhor, mas é muito importante notar que se você exagerar em um dia, provavelmente vai meditar menos no outro (princípio Yin-Yang em ação), então é melhor fazer a mesma quantidade todos os dias, e ir aumentando aos poucos se quiser meditar mais.

4 - Entenda que os ensinamentos mais altos são inúteis se você não consegue praticar nem os mais básicos, como a ética (evitar as dez ações não-virtuosas). Então você deve começar com a ética e fazer o seu melhor com os ensinamentos mais básicos até dominá-los, ou pelo menos entendê-los bem antes de avançar para ensinamentos mais avançados.

5 - Pense no Budismo Tibetano como uma pirâmide. Ele começa com as fundações do Hinayana para uma base estável, então constrói-se sobre o Hinayana com a motivação altruísta do Mahayana e sua prática das Seis Perfeições(Paramitas), e na base do Hinayana e do Mahayana constrói-se o Vajrayana, que é o ápice do Budismo Tibetano e a prática diária principal dos praticantes sérios. A maneira como isso funciona é similar a como a realização da impermanência, sofrimento e ausência do eu (sabedoria) no Budismo Hinayana é dependente do alcance da concentração que por sua vez depende da prática da moralidade (respeitar os preceitos).

6 - Saiba que o Budismo Tibetano contem ensinamentos para pessoas de todos os tipos de temperamento: ele tem ensinamentos filosóficos avançados para os mais intelectuais; ensinamentos de meditação e experiência mística para os mais Zen e práticas com energia (em Vajrayana) para mover o vento (prana, chi. ki) para clareza mental, saúde e realização espiritual, como Tai Chi e ioga hindu - para aqueles que querem uma prática budista com ênfase na saúde do corpo físico. O Budismo Tibetano também lida com os pontos sutis, assim como o prana na prática do Vajrayana. Não importa qual tipo de pessoa você é, provavelmente há ensinamentos do Budismo Tibetano que seriam adequados ao seu tipo de personalidade ou orientação/mental/emocional/física/espiritual. Além disso, as diferentes divindades (Buddas e Bodhisattvas) são para pessoas com diferentes tipos de personalidade ou inclinação espiritual. Para quem é intelectual, os ensinamentos de Manjushri são bastante apropriados; para quem não é tão intelectual mas bondoso e compassivo, a prática de Avalokiteshvara seria muito boa; para mulheres, a prática da divindade Tara (uma divindade feminina) seria boa; e para aqueles interessados em poder, Vajrapani (que representa o poder dos buddhas) seria uma boa divindade.

7 - Aprenda sobre Lamrim e pratique o básico primeiro. Lamrim é um conjunto especial de instruções que inclui todos os ensinamentos essenciais de Buda Shakyamuni arrumados de tal maneira que todos os seus ensinamentos hinayana e mahayana podem ser postos em prática numa única sessão de meditação.

8 - Faça um esforço árduo e constante para aprender sobre e gerar Bodhicitta na sua mente e no seu coração. Bodhicitta é um dos aspectos mais importantes do Budismo Tibetano (embora não um de seus aspectos distintos, pois todos os budistas Mahayana são definidos como possuidores de Bodhicitta). O Budismo Tibetano tem uma definição mais clara de Bodhicitta do que as outras formas de Mahayana, e ele também tem técnicas mais claramente definidas e desenvolvidas para desenvolver Bodhicitta do que elas.

9 - Pratique Tonglen todos os dias para desenvolver compaixão e criar karma positivo. A prática de tonglen é uma meditação ativa, que através da respiração associada à visualização e à intenção amorosa e um desejo auspicioso de beneficiar uma pessoa em sofrimento ou grupo, pode nos ajudar no despertar da compaixão inata. É uma das meditações mais praticadas no budismo tibetano.

10 - Encontre um Lama ou Rinpoche tibetano para lhe ensinar ainda mais do que poderia sozinho, especialmente se você deseja certas delegações de poder.Você deve tentar conseguir ensinamentos do Karmapa ou do Dalai Lama.



DICAS:
  • Ao meditar, você não vê sempre o progresso que está fazendo. “O conhecimento é como a poeira” (como disse um mestre de artes marciais), você não consegue vê-lo se acumular porque acontece muito lentamente, mas depois de um tempo quando você vai dar uma olhada, você consegue ver que aumentou um bocado. Logo, é importante não parar de meditar, mesmo se você não acha que está progredindo. Você está progredindo, e quanto depende de quanto você praticar, não do método que usa; não fique em uma procura eterna pelo melhor método de meditação. Eles são todos bons, e depende mais de quanto você se esforça no método para determinar o que você consegue com ele.
  • Não tente entender tudo e fazer tudo se encaixar perfeitamente na sua cabeça; apenas entenda que nenhum sistema filosófico ou religião faz sentido lógico perfeito. A lógica sempre leva a contradições. Só leve o que funciona para você do Budismo Tibetano (os princípios) e pratique todos os dias. Quanto mais você estudar e meditar, mais tudo vai começar a se mesclar e se unir na sua mente, e você tem que deixar cozinhando por um bom tempo. Quanto mais avançado ou difícil o ensinamento, mais tempo demora para assimilar.
AVISO:
  • Você colhe o que planta. Só porque você conhece intelectualmente a perspectiva filosófica mais avançada do mundo, isso não torna você uma pessoa mais avançada do que os outros. O que importa é o quanto você é ético, mentalmente rápido, e compassivo emocionalmente e ativamente. Para que os ensinamentos do Budismo Tibetano mudem sua vida você precisa dedicar a eles muito tempo e esforço, e lembrar de aplicá-los na sua vida cotidiana.
  • O Budismo Tibetano é uma religião imensa. Há muitos escritos, divindades, princípios, práticas, meditações, professores e história. Pode ser avassalador, e vai demorar bastante para ler apenas os escritos principais uma vez, quanto mais diversas vezes até você ficar familiar com eles. É melhor só ler e memorizar alguns escritos essenciais curtos com os quais você possa trabalhar todos os dias.
  • Novamente, seja paciente. Isso leve bastante tempo. Mesmo só aprender e praticar o Budismo Hinayana (Therava) precisa de envolvimento e leva um bom tempo. O Budismo Tibetana contem bastante do Hinayana, todo o Mahayana e também contem e enfatiza o Vajrayana (também conhecido como Mantrayana, Tantrayana ou Tantra).





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ensinamento sobre a Compaixão


Poucos dias depois de seu aniversário de 28 anos, Gyalwang Karmapa deixou os estudantes e devotos locais encantados ao conceder um ensinamento de improviso, atendendo aos pedidos dos estudantes do Monastério de Gyuto, sua residência temporária.
Embora o ensinamento não tenha sido planejado, a notícia se espalhou rápido pelas imediações e logo uma pequena multidão lotou o gompa, ansiosa para ouvir as palavras de sabedoria de Gyalwang Karmapa.
Ele começou agradecendo aqueles que ali estavam reunidos pelo interesse demonstrado pelo seu aniversário e por todas as celebrações pessoais e preces de aspiração. “Com a exceção dos indivíduos sublimes e espiritualmente avançados, todos nós, pessoas ordinárias, estamos sujeitos aos sofrimentos do nascimento, envelhecimento, doença e morte”, disse ele. “Pessoalmente, não vejo necessidade de celebrar o meu aniversário, já que o nascimento, de um modo geral, não é nada mais do que sofrimento. Mas, ainda assim, sinto que preciso expressar o meu agradecimento pessoal a cada um de vocês e a todas as pessoas a todas as pessoas que veem o meu aniversário como uma ocasião para realizar preces virtuosas e dedicações.”
Seguindo sua conduta habitual, no começo do ensinamento Gyalwang Karmapa ofereceu a todos ali reunidos a transmissão oral da prática do Chenrezig de Quatros Braços. Descrevendo essa prática específica como sendo a própria prática da compaixão, ele então prosseguiu com um ensinamento extensivo sobre a compaixão.
“O que chamamos de compaixão é a vontade ou o desejo de ser capaz de proteger os seres sencientes do sofrimento”, começou ele. “Nós poderíamos chamar isso de um senso de determinação, um senso de coragem ou de decisão. Isso é compaixão. Não é apenas algo intelectual, que pertence ao cérebro ou a essa esfera de nossas experiências. Pelo contrário: a compaixão é uma qualidade ou sentimento poderoso que nasce do fundo de nossos corações e que é necessariamente sincero. É assim que eu enxergo a compaixão.”
Criando um vínculo entre a necessidade de compaixão e a realidade da interdependência no nosso mundo contemporâneo, Gyalwang Karmapa enfatizou as ligações entre o bem-estar coletivo e o individual.
“No século XXI, nós nos encontramos no que podemos chamar de era da informação”, explicou ele. “Dentro da era da informação, eu diria que, mais do que nunca, o sofrimento dos outros seres passou realmente a fazer parte da nossa experiência individual. Isso não é meramente uma ideia; isso descreve a verdadeira realidade do mundo em que vivemos agora. Conforme continuamos nessa era da informação, podemos ver que nosso mundo está ficando cada vez menor e que todos nós estamos ficando cada vez mais perto uns dos outros. Dessa forma, ficará, também, cada vez mais evidente que as experiências dos outros seres sencientes são, de fato, parte da nossa própria experiência individual.”
“Isso não é meramente uma noção ou um conceito, mas um fato da nossa realidade como a experimentamos atualmente”, continuou ele. “O sofrimento dos outros seres é parte da nossa experiência individual. E isso é verdade devido ao fato de sermos mutuamente dependentes. Por sermos mutuamente conectados ou inter-relacionados, qualquer que seja o impacto sofrido por um indivíduo, tal impacto, na verdade, afetará todos nós. Então, eu penso que, nesses termos, a compaixão é uma maneira especialmente realista de lidar com a situação em que vivemos nos dias atuais.”
Gyalwang Karmapa, então, explicou que a compaixão tem que começar com a compaixão por nós mesmos. Além disso, a compaixão não deveria permitir o nascimento de qualquer sensação de separação entre nós mesmos e aqueles por quem sentimos compaixão; mas, sim, permitir que nos identifiquemos mais proximamente com os outros.
“Para desenvolvermos nossa habilidade de sentir compaixão pelos outros, nós precisamos começar por nós mesmos”, disse ele. “Precisamos considerar, de um ponto de vista individual, o quanto estamos oprimidos pelo sofrimento. O nosso nível individual de sofrimento, então, passará a ser o modelo que usaremos como base para expandirmos o nosso entendimento sobre a qualidade das experiências dos outros, sejam elas boas ou más.”
“Ao olhar para esse relacionamento, estamos tentando desenvolver compaixão por alguém como objeto da compaixão”, continuou ele. “De nossa parte, somos aqueles que sentem ou cultivam esse senso de entendimento. Mas, se tivermos a concepção de que nós estamos em uma boa situação e que estamos olhando para alguém que está em uma situação desfavorável, então, haverá uma sensação de separação. Não devemos permitir que tal sensação se coloque entre nós e aqueles por quem sentimos compaixão. O que devemos fazer é empenhar-nos para sentirmos que somos parte da pessoa que está sofrendo, que estamos participando de seu sofrimento. Dessa forma, basearemos nossa compaixão em um forte senso de identificação com um outro indivíduo.”


domingo, 24 de março de 2013

O treinamento da mente no cotidiano



S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche
O budismo é uma tradição espiritual e filosófica que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos e hábitos negativos da mente e revelar a sua natureza pura e absoluta.
A natureza básica da mente é como ouro puro, mas a sua pureza inerente não é óbvia, pois está coberta por uma mescla de emoções conflitantes, circunstâncias cármicas, obscurecimentos intelectuais e hábitos.Essas camadas não refinadas, como minério que contém ouro, precisam ser removidas para que a essência pura do nosso ser, o ouro elementar, seja revelada.
Nosso nascimento humano nos oferece a oportunidade de empreender esse processo de purificação e descobrir o amor, a compaixão, a equanimidade e a alegria que surgem espontaneamente da natureza fundamental da mente.
Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada.
Sei disso por experiência própria, pois meu país, o Tibete, foi perdido para os invasores comunistas, completamente hostis às nossas tradições culturais e espirituais. Muitos grandes mestres morreram de fome, foram torturados e assassinados. Apesar dessas aflições, os comunistas não conseguiram tirar deles a fé, a compaixão ou a paz interior conquistada por meio da realização espiritual. Eles podiam, apenas, dominar a realidade exterior.
O que é significativo?
A maioria de nós, neste país abundante e acolhedor que é o Brasil, não se depara com desafios tão dramáticos. Ao invés disso, somos desafiados a encontrar o que é realmente significativo em nossas vidas tão atarefadas e descobrir o que verdadeiramente é benéfico em nossas interações com a família, com aqueles que amamos, com as pessoas com quem trabalhamos e encontramos.
Sob o ponto de vista budista, nada supera a importância do uso deste nascimento humano precioso para reconhecermos a inabalável natureza absoluta da mente. Esse reconhecimento instiga confiança e poder para enfrentar os acontecimentos efêmeros, tanto internos quanto externos. O caminho para o conhecimento da natureza da mente depende de nossos esforços para beneficiar os demais. Cada vez que colocamos de lado nossas tendências autocentradas para trabalhar pelo bem-estar dos outros, purificamos alguns dos obscurecimentos usuais da mente e aumentamos nosso mérito.
Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana
A purificação e geração de mérito constituem o caminho para a iluminação e podemos encontrar constantes oportunidades para integrá-las às nossas atividades cotidianas. As pessoas, em geral, queixam-se de que não têm tempo para fazer prática formal. Entretanto, qualquer dia pode ser estruturado como uma sessão de meditação prolongada.
• Ao acordarmos pela manhã, nos alegramos com o fato de termos mais um dia para consumar a prática espiritual.
• Estabelecemos uma motivação pura e forte para deixar de prejudicar os outros por meio de nossas ações do corpo, fala e mente e para beneficiá-los como pudermos.
• Durante o dia, verificamos a nossa mente – mesmo quando estamos conversando ou ocupados com atividades – para ver se essas ações advêm de uma intenção pura ou de venenos como o egoísmo, o orgulho, a inveja e a raiva. As ações ou palavras podem ser exatamente as mesmas, mas a motivação positiva ou negativa por trás delas determinará seus resultados cármicos.
• À noite, antes de dormir, refletimos sobre o nosso dia. Se encontrarmos momentos em que fracassamos em seguir nossas boas intenções, podemos purificá-los. Invocamos um ser iluminado como nossa testemunha, reconhecemos nossa falha, geramos remorso por tê-la cometido, fazemos o compromisso de não repeti-la e recebemos a purificação visualizando que luz se irradia de nossa testemunha iluminada, nos permeia e purifica a negatividade.
• Também relembramos os momentos em que criamos mérito com nossas ações, nossa comunicação e intenções positivas. Imaginamos esse mérito se expandindo e formando uma vasta oferenda que se dissolve nas mentes de todos os seres por todo o universo.

Praticantes secretos

Do mesmo modo que uma pessoa, ao acender uma vela, fornece luz para todos que estão no mesmo ambiente, a dedicação do mérito que geramos individualmente aumenta qualidades positivas – prosperidade, longevidade e felicidade – para todos os seres.
Os ensinamentos de Buda nos permitem consumar uma transformação através da prática espiritual sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos nossa crença para os outros, sem religiosidade externa. Internamente, treinamos nossa mente e nos tornamos praticantes secretos no caminho à iluminação.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sobre a ganância


Dalai Lama (Tibete, 6 de julho de 1935 ~):
A ganância é uma forma de desejo. Contudo, é um tipo exagerado de desejo, baseado em uma expectativa exagerada. O verdadeiro antídoto para a ganância é o contentamento.
Para um praticante budista, um praticante do Dharma, muitas práticas podem atuar como uma forma de força contrária à ganância: a compreensão do valor de se buscar liberação do sofrimento, reconhecer a natureza de insatisfação subjacente à existência, e tudo mais.
Esses pontos de vista também ajudam um indivíduo a neutralizar a ganância. Mas em termos de uma resposta imediata, uma maneira é refletir sobre os excessos da ganância: o que ela faz com uma pessoa, para onde ela leva. A ganância leva para um sentimento de frustração, desapontamento, muita confusão e muitos problemas.
Quando se trata de lidar com a ganância, uma coisa bem particular é que embora ela venha do desejo de se obter algo, ela não se satisfaz ao obter isso. Assim, ela se torna sem limites, e isso leva a problemas. O interessante da ganância é que embora sua motivação subjacente seja a busca por satisfação, como apontei, mesmo após obter o objeto de desejo, a pessoa não se satisfaz.
Por outro lado, se a pessoa tem um forte sentimento de contentamento, não importa se ela obteve o objeto ou não; de qualquer modo, ela está contente.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mensagem de Dzongsar Khyentse Rinpoche


Dungsey Thinley Norbu Rinpoche, o pai de Dzongsar Khyentse Rinpoche, faleceu no dia 27 de dezembro de 2011. Transcrevemos abaixo a carta que Khyentse Rinpoche escreveu para a sanga, com recomendações de como ver a passagem de um grande iogue. Thinley Norbu Rinpoche nasceu no Tibete, como o filho mais velho de Dudjom Rinpoche. Ele foi um grande poeta e autor de importantes textos como A Small Golden Key, Magic Dance, White Sail e A Cascading Waterfall of Nectar.

Agradeço a todos por seus sentimentos e melhores votos, neste momento.

Vivemos em um mundo que nós mesmos criamos, um mundo montado a partir das nossas percepções pessoais, no qual acreditamos por inteiro: todos os anos, todos os dias, todas as horas, todos os momentos da nossa vida.

Embora esta vida na realidade seja fugaz, durando não mais do que o saltar de uma fagulha, ela é vivenciada por alguns como interminável, arrastando-se por eras e eras. Já para outros, a experiência deste mundo dura menos que um piscar de olhos, embora na realidade este mundo exista por um tempo infinito.

Para alguns, este mundo não é maior do que o buraco de um caruncho; no entanto, eles se sentem insignificantes e isolados, perdidos em um vazio vasto e sem fim. Outros percebem o mundo como pequeno − tão pequeno quanto um universo inteiro − e se sentem desconfortavelmente confinados e claustrofóbicos.

A maioria de nós − e aqui eu me incluo − fomos condicionados a viver e morrer em um mundo criado por nossas próprias percepções; e mais, continuamos a criar condições que asseguram que repetiremos o mesmo jogo, vez após vez.

Dentro uma infinidade de possíveis percepções, Thinley Norbu Rinpoche é visto por alguns como uma pessoa comum, por outros como um pai, um professor, um ser perfeito − diferentes percepções determinadas pelo mérito (ou falta de mérito) de quem percebe.

Para pessoas como eu, cuja limitação me leva a vê-lo apenas como meu pai, as condolências manifestadas por vocês são aceitas como apoio emocional.

Para aqueles dotados de “qualidades superiores” − ou que aspiram desenvolver essas qualidades − e que conseguem enxergar Thinley Norbu como um ser perfeito, esta é mais uma oportunidade para pôr de lado percepção não-pura e gerar percepção pura, para que se possa ao final passar adiante de toda percepção.

A “consciência” ou “estado desperto” é a essência dos ensinamentos de Buda − desde a consciência do ar fresco que entra e sai por nossas narinas, até a profunda consciência da natural perfeição. E em sua compaixão e coragem incomensuráveis, o único propósito e atividade de todos os budas é tocar o sino que nos alerta e nos conduz para essa consciência desperta.

Para os que têm mérito suficiente, a passagem deste grande ser pode ser interpretada como o soar desse sino de alerta, e uma recordação oportuna de todos os ensinamentos − desde a simples verdade da impermanência até a realização da compaixão ilimitada. Sob esse ângulo, na mesma medida em que a nossa mente obscurecida apreciou e valorizou o aparecimento de Thinley Norbu neste mundo, cabe a ela, agora, apreciar e valorizar o desaparecimento dele.

Ainda que seja tocante saber daqueles que estão a oferecer preces, recitações, lamparinas e tantas outras atividades benéficas nesta ocasião, permitam-me lembrar, a mim mesmo e a todos os interessados, que nenhuma dessas práticas que estamos fazendo são para ele; antes, são para nós mesmos.

Por mais cintilante que seja a lua ao aparecer no céu, seu reflexo não será visto, se as águas do lago estiverem turvas. Igualmente, é por meio da purificação dos obscurecimentos e da acumulação de méritos em nossa própria mente que conseguiremos, com o tempo, perceber o reflexo de Buda − intacto, completo, nunca afastado.

Então, melhor do que nos congratularmos com o pensamento de que estamos acumulando todas estas práticas nesta ocasião especial, é termos presente que nós já as deveríamos estar fazendo − e que deveremos continuar a fazê-las por toda esta vida, e também ao longo de todas as nossas vidas futuras. Se imaginarmos, porém, que nossa prática é algo como proporcionar “ritos de passagem” a este grande ser, definitivamente esse não é o melhor caminho a seguir.

Foi-me perguntado que práticas específicas deveriam ser feitas. Repito, uma vez mais, que nossa prática é a vigilância, ou seja, o “estado desperto”. Somos seres ignorantes, o que quer dizer que precisamos de constantes lembretes da importância de nos esforçarmos para pousar nessa consciência desperta. Portanto, todas as atividades do nosso guru − desde quando ele boceja ou tosse, até quando ele aparece ou desaparece − são modos que ele tem nos lembrar de voltarmos para o estado desperto, vez após vez.

E, se estivermos conscientes e despertos, não há prática que seja melhor, nem prática que seja pior.

Escrito e dedicado à iluminação de todos os seres sencientes, na presença do rupakaya de Thinley Norbu.

domingo, 13 de março de 2011

O treinamento da mente no cotidiano



S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche
O budismo é uma tradição espiritual e filosófica que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos e hábitos negativos da mente e revelar a sua natureza pura e absoluta.
A natureza básica da mente é como ouro puro, mas a sua pureza inerente não é óbvia, pois está coberta por uma mescla de emoções conflitantes, circunstâncias cármicas, obscurecimentos intelectuais e hábitos.Essas camadas não refinadas, como minério que contém ouro, precisam ser removidas para que a essência pura do nosso ser, o ouro elementar, seja revelada.
Nosso nascimento humano nos oferece a oportunidade de empreender esse processo de purificação e descobrir o amor, a compaixão, a equanimidade e a alegria que surgem espontaneamente da natureza fundamental da mente.
Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada.
Sei disso por experiência própria, pois meu país, o Tibete, foi perdido para os invasores comunistas, completamente hostis às nossas tradições culturais e espirituais. Muitos grandes mestres morreram de fome, foram torturados e assassinados. Apesar dessas aflições, os comunistas não conseguiram tirar deles a fé, a compaixão ou a paz interior conquistada por meio da realização espiritual. Eles podiam, apenas, dominar a realidade exterior.
O que é significativo?
A maioria de nós, neste país abundante e acolhedor que é o Brasil, não se depara com desafios tão dramáticos. Ao invés disso, somos desafiados a encontrar o que é realmente significativo em nossas vidas tão atarefadas e descobrir o que verdadeiramente é benéfico em nossas interações com a família, com aqueles que amamos, com as pessoas com quem trabalhamos e encontramos.
Sob o ponto de vista budista, nada supera a importância do uso deste nascimento humano precioso para reconhecermos a inabalável natureza absoluta da mente. Esse reconhecimento instiga confiança e poder para enfrentar os acontecimentos efêmeros, tanto internos quanto externos. O caminho para o conhecimento da natureza da mente depende de nossos esforços para beneficiar os demais. Cada vez que colocamos de lado nossas tendências autocentradas para trabalhar pelo bem-estar dos outros, purificamos alguns dos obscurecimentos usuais da mente e aumentamos nosso mérito.
Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana
A purificação e geração de mérito constituem o caminho para a iluminação e podemos encontrar constantes oportunidades para integrá-las às nossas atividades cotidianas. As pessoas, em geral, queixam-se de que não têm tempo para fazer prática formal. Entretanto, qualquer dia pode ser estruturado como uma sessão de meditação prolongada.
• Ao acordarmos pela manhã, nos alegramos com o fato de termos mais um dia para consumar a prática espiritual.
• Estabelecemos uma motivação pura e forte para deixar de prejudicar os outros por meio de nossas ações do corpo, fala e mente e para beneficiá-los como pudermos.
• Durante o dia, verificamos a nossa mente – mesmo quando estamos conversando ou ocupados com atividades – para ver se essas ações advêm de uma intenção pura ou de venenos como o egoísmo, o orgulho, a inveja e a raiva. As ações ou palavras podem ser exatamente as mesmas, mas a motivação positiva ou negativa por trás delas determinará seus resultados cármicos.
• À noite, antes de dormir, refletimos sobre o nosso dia. Se encontrarmos momentos em que fracassamos em seguir nossas boas intenções, podemos purificá-los. Invocamos um ser iluminado como nossa testemunha, reconhecemos nossa falha, geramos remorso por tê-la cometido, fazemos o compromisso de não repeti-la e recebemos a purificação visualizando que luz se irradia de nossa testemunha iluminada, nos permeia e purifica a negatividade.
• Também relembramos os momentos em que criamos mérito com nossas ações, nossa comunicação e intenções positivas. Imaginamos esse mérito se expandindo e formando uma vasta oferenda que se dissolve nas mentes de todos os seres por todo o universo.
Praticantes secretos
Do mesmo modo que uma pessoa, ao acender uma vela, fornece luz para todos que estão no mesmo ambiente, a dedicação do mérito que geramos individualmente aumenta qualidades positivas – prosperidade, longevidade e felicidade – para todos os seres.
Os ensinamentos de Buda nos permitem consumar uma transformação através da prática espiritual sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos nossa crença para os outros, sem religiosidade externa. Internamente, treinamos nossa mente e nos tornamos praticantes secretos no caminho à iluminação.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Losar (Ano-Novo Tibetano)


Seguindo-se o calendário lunar budista, o ano-novo será comemorado sábado, dia 5 de março de 2011.

Acredita-se que os efeitos de todas as atividades, positivas ou negativas, é multiplicado nesta época do ano. Portanto, encerraremos o ano antigo e iniciaremos o novo ano com atividades de purificação de negatividades e remoção de obstáculos.

Somente com essas atividades é possível afastar as raízes do sofrimento, criando-se causas para se atingir a felicidade, seja ela relativa ou última.