Poucos dias depois de seu aniversário de 28 anos,
Gyalwang Karmapa deixou os estudantes e devotos locais encantados ao
conceder um ensinamento de improviso, atendendo aos pedidos dos
estudantes do Monastério de Gyuto, sua residência temporária.
Embora o ensinamento não tenha sido planejado, a
notícia se espalhou rápido pelas imediações e logo uma pequena
multidão lotou o gompa, ansiosa para ouvir as palavras de sabedoria
de Gyalwang Karmapa.
Ele começou agradecendo aqueles que ali estavam
reunidos pelo interesse demonstrado pelo seu aniversário e por todas
as celebrações pessoais e preces de aspiração. “Com a exceção
dos indivíduos sublimes e espiritualmente avançados, todos nós,
pessoas ordinárias, estamos sujeitos aos sofrimentos do nascimento,
envelhecimento, doença e morte”, disse ele. “Pessoalmente, não
vejo necessidade de celebrar o meu aniversário, já que o
nascimento, de um modo geral, não é nada mais do que sofrimento.
Mas, ainda assim, sinto que preciso expressar o meu agradecimento
pessoal a cada um de vocês e a todas as pessoas a todas as pessoas
que veem o meu aniversário como uma ocasião para realizar preces
virtuosas e dedicações.”
Seguindo sua conduta habitual, no começo do
ensinamento Gyalwang Karmapa ofereceu a todos ali reunidos a
transmissão oral da prática do Chenrezig de Quatros Braços.
Descrevendo essa prática específica como sendo a própria prática
da compaixão, ele então prosseguiu com um ensinamento extensivo
sobre a compaixão.
“O que chamamos de compaixão é a vontade ou o
desejo de ser capaz de proteger os seres sencientes do sofrimento”,
começou ele. “Nós poderíamos chamar isso de um senso de
determinação, um senso de coragem ou de decisão. Isso é
compaixão. Não é apenas algo intelectual, que pertence ao cérebro
ou a essa esfera de nossas experiências. Pelo contrário: a
compaixão é uma qualidade ou sentimento poderoso que nasce do fundo
de nossos corações e que é necessariamente sincero. É assim que
eu enxergo a compaixão.”
Criando um vínculo entre a necessidade de
compaixão e a realidade da interdependência no nosso mundo
contemporâneo, Gyalwang Karmapa enfatizou as ligações entre o
bem-estar coletivo e o individual.
“No século XXI, nós nos encontramos no que
podemos chamar de era da informação”, explicou ele. “Dentro da
era da informação, eu diria que, mais do que nunca, o sofrimento
dos outros seres passou realmente a fazer parte da nossa experiência
individual. Isso não é meramente uma ideia; isso descreve a
verdadeira realidade do mundo em que vivemos agora. Conforme
continuamos nessa era da informação, podemos ver que nosso mundo
está ficando cada vez menor e que todos nós estamos ficando cada
vez mais perto uns dos outros. Dessa forma, ficará, também, cada
vez mais evidente que as experiências dos outros seres sencientes
são, de fato, parte da nossa própria experiência individual.”
“Isso não é meramente uma noção ou um
conceito, mas um fato da nossa realidade como a experimentamos
atualmente”, continuou ele. “O sofrimento dos outros seres é
parte da nossa experiência individual. E isso é verdade devido ao
fato de sermos mutuamente dependentes. Por sermos mutuamente
conectados ou inter-relacionados, qualquer que seja o impacto sofrido
por um indivíduo, tal impacto, na verdade, afetará todos nós.
Então, eu penso que, nesses termos, a compaixão é uma maneira
especialmente realista de lidar com a situação em que vivemos nos
dias atuais.”
Gyalwang Karmapa, então, explicou que a compaixão
tem que começar com a compaixão por nós mesmos. Além disso, a
compaixão não deveria permitir o nascimento de qualquer sensação
de separação entre nós mesmos e aqueles por quem sentimos
compaixão; mas, sim, permitir que nos identifiquemos mais
proximamente com os outros.
“Para desenvolvermos nossa habilidade de sentir
compaixão pelos outros, nós precisamos começar por nós mesmos”,
disse ele. “Precisamos considerar, de um ponto de vista individual,
o quanto estamos oprimidos pelo sofrimento. O nosso nível individual
de sofrimento, então, passará a ser o modelo que usaremos como base
para expandirmos o nosso entendimento sobre a qualidade das
experiências dos outros, sejam elas boas ou más.”
“Ao olhar para esse relacionamento, estamos
tentando desenvolver compaixão por alguém como objeto da
compaixão”, continuou ele. “De nossa parte, somos aqueles que
sentem ou cultivam esse senso de entendimento. Mas, se tivermos a
concepção de que nós estamos em uma boa situação e que estamos
olhando para alguém que está em uma situação desfavorável,
então, haverá uma sensação de separação. Não devemos permitir
que tal sensação se coloque entre nós e aqueles por quem sentimos
compaixão. O que devemos fazer é empenhar-nos para sentirmos que
somos parte da pessoa que está sofrendo, que estamos participando de
seu sofrimento. Dessa forma, basearemos nossa compaixão em um forte
senso de identificação com um outro indivíduo.”
Original
disponível
em: http://kagyuoffice.org/gyalwang-karmapa-teaches-on-compassion-2/

